A
ILUSÃO DO ABRIGO
por Ana
Lúcia Leão

foto: Pablo Yañez |
Inúmeras
vezes ouvimos de pessoas que acabaram de recolher um animal
da rua dizer: "Ah! Se eu tivesse dinheiro para montar
um abrigo!". Fica bem claro, com este sonho, que elas
nunca visitaram um, para saber a realidade.
Um
abrigo começa sempre com as melhores intenções.
Se quem o abre tem uma certa dose de "pé no chão",
imagina um número limite de animais a serem abrigados.
Mas o objetivo nunca é atingido. Seja porque se condói
dos animais abandonados que encontra; ou dos casos tristes
que donos contam para deixar a responsabilidade na mão
do outros; ou ainda, daqueles que abandonam na porta, ou
jogam animais lá dentro.
Em
pouco tempo o limite anteriormente fixado é expandido.
E quem pensava ter 50 animais se vê com 100, 200 para
alimentar, vacinar, manter limpos, higienizar as instalações,
etc. Já ouvi histórias de fortunas perdidas
em sonhos de abrigo. Recentemente a de uma senhora que estava
sendo obrigada a sacrificar os animais mais idosos e doentes
por não poder mantê-los, mesmo em precaríssimas
condições. Depois de seu patrimônio ter
se acabado, passado pela fase de pedir ajuda aos amigos,
depois parentes, depois aos desconhecidos, por fim a veterinários
e à Proteção Animal para sacrificar
os animais aos quais ela sonhou dar uma vida melhor ou salvar
da morte nas ruas.
Abrigo
não é solução, é problema
gerado pelo descaso social. Do lado oposto de quem sonha
montar um, existe a crença das pessoas em geral de
que basta pegar um animal na rua e metê-lo num abrigo
para resolver o problema. Quantas vezes ouvimos "leva
pra Sociedade Protetora dos Animais..." Se visitassem
algum abrigo dos muitos existentes por aí, veriam
a triste realidade: Dezenas, até centenas de animais
se digladiando por comida, muitos doentes, e até casos
de canibalismo gerados pela fome. Mas ninguém pensa
em como a "Sociedade Protetora" vai conseguir recursos.
O
que a sociedade não vê, está muito
claro para nós que lidamos com o problema 24 horas
por dia: em vez de abrigo, dar lar transitório, uma
casa de apoio. O animal é tratado, vacinado, esterilizado
e doado. E isso, por vezes, demora meses.
Como
doar tantos animais e os resultantes dos naturais cruzamentos,
que nascem aos montes todos os
dias? Como achar donos suficientes
(e responsáveis ) que os adote?
Informando
e educando as pessoas sobre posse responsável
e fazê-las compreender que esterilizar cães
e gatos (fêmeas e machos) é a única solução
possível para o abandono de animais em massa com que
convivemos.
Mas
o que é desesperante é ver ainda veterinários
aconselharem donos a deixar seus animais ter a primeira cria
para só depois esterilizá-los; donos darem
a desculpa de que "esterilizar faz o animal engordar" (é só continuar
dando a mesma quantidade de alimento que isso não
acontece ); desculpa da "falta de dinheiro " (quando
a Prefeitura e os grupos da Proteção oferecem
cirurgias a baixo custo ou mesmo gratuitas ); e da anti-social
indústria dos criadores.
E
estas mesmas pessoas ainda têm coragem de dizer
que gostam de animais, deixando nascer aqueles que serão
doados para qualquer um. Ou se alimentar de lixo. Ou morrer
atropelados. Talvez sarnentos, famintos, num abrigo irremediavelmente
sem recursos, sem ao menos o carinho de um dono.
Ana Lúcia Leão
Jornalista.
Membro do Fórum Nacional de Proteção
e Defesa Animal e da Cia. do Bicho.
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Fonte do Artigo: www.greepet.vet.br
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