AMOR
NA COLEIRA
Por
João O. Salvador
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| foto:
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Quem
vê um cachorro passeando entre os leitos dos hospitais
da USP (Universidade de São Paulo), visitando os
pacientes, pode pensar que é um desmazelo, uma falha
de organização, mas, na verdade, é uma
iniciativa do “Projeto Amor na Coleira”, em
visitas semanais de duas ou três horas, sob os cuidados
de um voluntário, que comanda os cães a serviço
da saúde, numa demonstração que o
melhor amigo do homem é fiel também na hora
da doença.
Foi com o título “A terapia dos cachorros” que o Jornal
da USP, número 755, pág 7, usou para abordar o assunto referente
ao uso de cães no tratamento em seus hospitais. A iniciativa da universidade
baseou-se nas pesquisas estrangeiras que indicam que a presença animal
traz benefícios, como o aumento do conforto, do bem-estar, diminuição
de solidão, de estresse e menor percepção da dor, além
do desenvolvimento da coordenação motora e do controle da pressão
arterial.
Este projeto existe desde 2001 no Hospital Universitário (HU) e atualmente
funciona no Instituto do Coração (Incor) e no Instituto de Ortopedia
e Traumatologia (IOT) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina
da USP.
Os pacientes acostumados à rotina, os que permanecem por mais tempo
nos leitos, como no caso dos adultos, se surpreendem com a visita animal e
se agitam positivamente, com suas brincadeiras, retomando o entusiasmo pela
vida. As crianças querem brincar e se empolgam com os truques caninos.
Hoje já está comprovado que quando alguém está feliz
o seu sistema imunológico funciona melhor. No caso do doente, o estado
de satisfação o faz recuperar mais rápido, evidentemente,
ativando as células de defesa.
Os animais utilizados no projeto da USP são selecionados ainda pequenos
pelo voluntário e não há restrições quanto à raça,
porém, para essas visitas, o cão deve estar limpo, com vacinas
em dia e sem problemas de saúde. O animal também não entra
em contato com pacientes internados por doenças infecto-contagiosas
para não ser um vetor de contágio, seguindo as normas da Comissão
de Controle de Infecção Hospitalar.
A terapia com animais vem demonstrando êxito também nos asilos,
onde os ilustres visitantes, pequenos “doutores” - cães,
gatos e coelhos - quebram a monotonia, a agonia, a tristeza dos velhinhos.
Os animais favorecem a união, a troca de carinho e, abastecem os sentimentos,
despertando-lhes a memória afetiva, trazendo de volta as sensações
agradáveis, a motivação, a compensação pela
perda da auto-estima. Aliás, esta forma de terapia é considerada
a chave para curar os grandes males do estressante e turbulento que será,
indubitavelmente, o século 21.
Será um
verdadeiro exercício para a alma, capaz de ajudar
o homem a combater sua ansiedade, angústia, depressão
e reduzir, certamente, o seu ódio, soberba, inveja,
vaidade, ambição e a grande carência
de amor, de amizade, cada vez mais presentes em seu comportamento
na era tecnológica, de dificuldades econômicas,
de mudanças, acima de tudo, de valores.
Certamente os animais domesticados gostariam de viver na mais perfeita paz
e higiênica harmonia com seu dono, mas para muitos eles são indesejáveis,
transmissores de doenças, inoportunos e os maltratam, os descartam como
um objeto, um brinquedo velho. Para esses, o que lhes agradam são os
bichos traiçoeiros, os que banalizam a vida e matam por prazer, o bicho-homem.
Com eles ninguém mexe por medo da vingança.
Por isso, há que elogiar a atitude da USP, uma das maiores universidades
do mundo que dignifica os benefícios que a “espécie sapiente” pode
adquirir do mundo animal, ensinando-a o verdadeiro sentido da interação
interespecífica da vida, dos valores proporcionais, da holística
universal.
É nesta instituição de ensino e pesquisa, inclusive, que
os professores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ)
vêm dando exemplos de luta contra a vivissecção inútil,
ao utilizarem a mesma substância usada na embalsamação de
cadáveres humanos, visando diminuir o sacrifício animal para fins
educativos.
Uma solução que, aplicada no sistema vascular dos animais mortos,
permite aos docentes reutilizar (congelar e descongelar) um cadáver
por até sete ou oito vezes, equivalentes, aproximadamente, a um semestre
letivo. Estes cientistas, sim, podem ser chamados de éticos, que respeitam
a causa animal.
João
O. Salvador
Biólogo da USP (Universidade de São
Paulo)
Colunista do site GREEPET,
colaborador do Jornal de Piracicaba,
Gazeta de Piracicaba e Tribuna Piracicabana
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