ANO
DE CÃO
Por João
O. Salvador
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Este
ano, para os chineses, é o do cachorro, seguindo
seu horóscopo. Sob este signo, a previsão é de
que o período seja de tranqüilidade geral,
um ano com benefícios na maioria dos campos de atividade
chinesa. Acreditam na confiabilidade, lealdade, vigilância,
honestidade, justiça e força.
Para o britânico John Gray, grande pensador, em sua
obra mais recente, “Cachorros de Palha”, expressa
a idéia de que a humanidade se engana ao acreditar
que ocupa um lugar de destaque no universo, que pode controlar
seu destino e algum dia será capaz de construir um
mundo melhor.
A explicação para o título
de seu livro está num poema do filósofo taoísta
Lao-Tsé sobre os cachorros feitos de palha que eram
reverenciados nos rituais religiosos chineses e, que, após
as cerimônias, eram incinerados.
Gray desafia os conceitos
do antropocentrismo, do que significa ser humano, e sugere
novas formas de pensar e sentir, mesmo porque, de Platão
ao Cristianismo, do Iluminismo a Nietzsche e Marx, a tradição
ocidental (e a oriental nem se fala!) se baseia em arrogantes
e equivocadas noções sobre o homem e seu lugar
no mundo, sempre ansioso em ocupar a posição
de destaque, diante de todas as espécies.
Sabe-se que a China vem ocupando as manchetes pelo crescimento
econômico, mesmo atropelando o cronograma, o controle,
o padrão de qualidade da natureza. Esse país
oriental, aliás, nunca foi afeto às coisas
naturais, usufrui-se de tudo, de todas as espécies.
Nada se perde, tudo se transforma em comida, em negócios,
no comércio gastronômico.
Pela filosofia chinesa, o cão é um animal que
estuda o território, seus personagens para saber quando
atacar ou atuar de forma inesperada, traiçoeira, surpreendendo
as pessoas à sua volta e os oponentes.
O grande paradoxo é que
o cão, depois de domesticado, transformou-se em um
animal de paz e só ataca quando mexem com ele, ou
ainda, no momento de defender seus valores e os bens materiais
e familiares de quem o possui e trata-o com dignidade. É um
animal que não tem dia, nem hora, está sempre
disposto a acompanhar o seu dono, jamais pensando em receber
algo em troca, a não ser carinho.
É
um ano próspero para os chineses, de equilíbrio,
harmonia, persistência, de felicidade e alegrias, mas
um “ano de cão”.
Com a crescente prosperidade e o aumento da competitividade
profissional, os chineses vêm aumentando a adesão
ao saudável hábito de conviver com animais
de estimação, buscando o companheirismo e a
amizade, substantivos que nunca foram peculiares à raça,
mesmo em momento de tanta solidão, de isolação
social.
Talvez seja pelo descaso chinês no que concerne à natureza é que
boa parte de doenças da moda origina-se naquele país,
e, algumas delas, têm potenciais para uma pandemia.
O problema crônico chinês para cães e
gatos é o comércio de peles, não bastasse
o da carne de ambos, muito apreciada, principalmente a do
cachorro.
Este comércio é ingrato, em razão
da prática cruel pela qual é feita, porque
os animais são mantidos em estoques, abatidos pelos
próprios donos, que os matam e levam as peles ao mercado,
ou são levados aos pontos de coleta para serem abatidos,
depois de viajarem horas espremidos, sem água e sem
comida.
Alguns cães, ao serem retirados das gaiolas,
balançam o rabo, numa atitude de confiança,
de apelo, porém são barbaramente golpeados
na virilha para escoar o sangue, enquanto se debatem de dor.
O fato positivo, diante de toda essa desgraça, é que
na própria china começam a se formar os primeiros
grupos de defesa dos animais.
Acho que na matéria
de defesa, temos muitos a ensinar aos chineses zoófilos,
principalmente na questão da persistência, da
perseverança, da esperança, já que os
velhos defensores, que se intercabiam, não se cansam
diante de tantos problemas de crueldade, do descaso com os
animais vistos aqui mesmo.
Mas já há conquistas,
principalmente no que tange à conscientização,
visto que, a cada dia surgem novos soldados e a luta continua.
João
O. Salvador
Biólogo da USP (Universidade de São
Paulo) Colunista do site GREEPET, colaborador do Jornal de
Piracicaba,
Gazeta de Piracicaba e Tribuna Piracicabana
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