A
ANTIÉTICA NA CULTURA DO COMÉRCIO E POSSE DE ANIMAIS
por Robson
Fernando

foto:
Christian Neubrand |
Imagine
o Mercado de Delos, numa cena corriqueira do século
3 A.C.. Lá, homens, mulheres e até crianças
eram “emplacados” com tábuas penduradas
no pescoço com origem, qualidades e defeitos descritos
e o preço em dracmas. Comerciantes abastados chegavam à ilha
da cidade, compravam essas pessoas para lhes servirem de
escravos e arrogavam então a si a posse dos humanos
comprados.
Imagine
você, vindo de uma viagem no tempo, perguntando
para um comerciante daqueles quem eram aquelas três
crianças nuas no barco dele e se tinham algum parentesco
com ele. Então ele diz: “Ah, são uns
escravos que comprei agora há pouco. E não
sou pai deles, sou dono”. E explica que os garotos
comprados eram de sua preferência: morenos, cabelos
longos e de olhos verdes, e satisfaziam aos seus desejos
de ter crianças bonitas para sua companhia afetiva.
Uma
sensação de indignação e
compaixão invade você ao ver aquele senhor tratando
aquelas crianças como mercadorias, como coisas, como
objetos de posse e categorizáveis. Não tolera
que ele esteja daquela forma comprando vidas humanas dotadas
de afeto e sentimentos num mercado. Num ato de reação
humana a atos de desumanidade, você semeia uma conversa
argumentativa com o “dono” das crianças
na intenção de mostrar que ele está sendo
imoral e desumano e fazê-lo libertar aquelas crianças
ou adotá-las como filhos de verdade. Seus argumentos
falam de as crianças serem humanas iguais a ele, terem
sentimentos, pensamentos, desejos, virtudes e direitos naturais à dignidade.
O homem então, depois de dez minutos de conversa,
vai embora irritado, levando as crianças, sem assimilar
a moral de direitos humanos que você tentou incutir
nele. Para ele, os meninos eram seres inferiores e sem direito à dignidade
que apenas os humanos de sua “raça” tinham
e cujos sentimentos e demonstrações de inteligência
serviriam para sua função de escravos de companhia.
Agora,
imagine você, dois anos depois de voltar daquela
viagem temporal, na frente de um pet shop, querendo comprar
filhotes de um yorkshire, manifestando preferência
por cãezinhos de pêlo comprido, liso e de cor
acaju. Paga então 600 reais por dois cachorros. Quando
você vai saindo com os dois filhotes recém-desmamados,
chega um defensor animal, com a camisa manifestando o ideal
da libertação animal. Ele logo começa
uma pequena entrevista com você sobre os animais recém-comprados. “Você é o
quê desses cães? E como os obteve?”, pergunta
o ativista. Você, imaginando o quão idiotas
aquelas perguntas pareciam ser, diz cordialmente “Sou
dono deles, ué. Comprei-os aqui no pet shop”.
E afirma que você os comprou para que lhe fossem companheiros.
Uma sensação de indignação e
compaixão invade o rapaz ao ver você tratando
esses animais como mercadorias, como coisas, como objetos
de posse e categorizáveis (você os comprou com
seletividade de raça, cor e pelagem). Ele então
lhe bombardeia de argumentos que corroboram o caráter
antiético do comércio e da arrogância
de posse de animais: um deles é que os animais não-humanos
têm sentimentos, pensamentos, desejos, virtudes e direitos
naturais à dignidade, ainda que os pensamentos sejam
construídos de forma diferente do pensar humano.
Você, caso seja empático, começa a ficar
pensativo: algo parecido já acontecera antes. Depois
de uma boa reflexão, repara que as únicas diferenças
entre as criaturas defendidas por você no século
3 A.C. e as defendidas pelo defensor animal no século
21 D.C. são a espécie e a presença ou
ausência das capacidades de fala articulada, raciocínio,
intelecto e trabalho manual complexo.
Partindo
dessa lição que você teve com
a relação entre as falas do ativista da causa
animal e o déjà-vu de Delos, convido a pensar: é certo
categorizar um animal de espécie diferente como portando
uma vida inferior à humana só por causa da
falta de habilidades humanas, a despeito de todas as semelhanças
existentes?
Se
você começar a refletir seriamente e finalmente
pensar “É, por que os animais, que são
mais parecidos conosco do que pensamos tradicionalmente,
ainda assim são tratados como inferiores?”,
vai, por tabela, perceber também que é eticamente
errado arrogar a si os direitos de ter posse de animais e
valorar suas vidas. Do mesmo jeito que é considerado
absurdo valorar a vida humana ou ter posse da vida e pessoa
alheia.
Para
ser mais evidente ainda em minha colocação
sobre o especismo e a antiética da posse e comércio
de animais não-humanos, vamos adotar dois exemplos
que você considera nobres.
Primeiro,
pense num Homo erectus. Ele tinha sentimentos, desejos,
virtudes, pensamentos, como você que é Homo
sapiens sapiens. Mas não tinha o intelecto nem o raciocínio
apurado que você tem, nem falava direito e suas melhores
ferramentas eram objetos de pedra rudimentarmente trabalhados.
Pergunto: ele era inferior a você? A vida dele era
inferior à sua? Ele merecia restrição
de direitos só porque não tinha as habilidades
humanas desenvolvidas? Deveríamos comercializá-los
em “super pet shops” caso existissem? Pense nisso.
Agora
pense num bebê. Você vai pensar “Poxa,
um bebê? Claro que ele tem sentimentos, desejos, virtudes,
pensamentos (ainda que em linguagem rudimentar), etc.”.
Mas entro com a suposição de que ele fosse
um bebê que tivesse uma doença degenerativa
que lhe causasse uma atrofia cerebral, impedindo que ele
desenvolvesse a maioria de suas habilidades de ser humano
quando crescesse, e fizesse-o morrer aos 12 anos (mesma idade
em que muitos cães e gatos morrem). Reflita então:
ele merece ser vendido? Você compraria esse bebê de
uma família que não tivesse condições
de custear sua sobrevivência? Você se acharia
dono desse bebê? Atenção, lembre-se de
que ele não poderia nunca desenvolver intelecto, raciocínio,
habilidade laboral, nada disso. Mas não deixa de ter
sentimentos, desejos, necessidades e virtudes. Ele inclusive
demonstra muito carinho para com você, da mesma forma
que os filhotes de yorkshire comprados na história
dos primeiros parágrafos lhe demonstram.
Faço a pergunta depois de todos esses casos: qual
a diferença entre os seres humanos normais e os descritos
no parágrafo acima? A presença de raciocínio,
intelecto, habilidades manuais, etc.. E agora qual é a
diferença entre o bebê mais o Homo erectus e
os cães, gatos, bois, peixes-betas, iguanas, etc.?
A única resposta adequada, apesar de sua possível
visão especista indignada com minha comparação, é:
a espécie. Daí pergunto: por que você compra
cães e gatos mas repudia uma hipotética comercialização
de espécimes de Homo erectus ou bebês com deficiência
de raciocínio?
Agora
você está começando a enxergar
o quão antiética é a venda e a posse
de animais. Não é ético que comercializemos
ou nos apossemos de animais, que têm tanto em comum
conosco e cujas ausências de habilidades humanas poderiam
ser notadas em outros hominídeos ou em humanos com
capacidades cerebrais comprometidas.
Como
a posse de animais é algo moralmente errado,
não devemos mais nos considerar “donos” dos
animais, uma vez que a palavra “dono” conota
posse ou propriedade e odiaríamos que alguém
dissesse ser dono de seus filhos. O certo é nos entitularmos “tutores”,
já que estamos educando e cuidando de nossos animais
domésticos e os termos “educação” e “cuidados” servem
perfeitamente também para nossas crianças ou,
por outro exemplo, intercambistas que estejam sob nossos
cuidados. E como o comércio de animais também é antiético,
fica meu clamor: NÃO COMPRE OU VENDA ANIMAIS, ADOTE-OS
OU DOE-OS.
P.S:
Se você se irritou com este artigo, pergunto:
qual é o fundamento dessa irritação,
além de mero especismo? O que foi dito aqui que está indiscutivelmente
errado? E por que para você os animais não-humanos
continuam não merecendo os direitos básicos
que o ser humano tem (liberdade e dignidade, para dar os
exemplos mais óbvios)? Acalme-se e reflita com o melhor
de sua racionalidade.
Robson Fernando
Estudante
*
este artigo pode ser publicado livremente em Revistas, Jornais, Newsletters e outros meios de comunicação, desde que a biografia do autor permaneça intacta e a fonte do artigo seja citada.
Fonte do Artigo: www.greepet.vet.br
|