APELO
DOS BICHOS
Por João
O. Salvador
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| foto:
Jose Mario Nunes |
Prezados
senhores que tanto discutem sobre o perigo que causamos à coletividade
humana, e que, educadamente, com muita resignação,
devemos respeitar.
Somente os que não têm
a sensibilidade, ou tempo suficiente para nos observar,
jamais perceberão que conosco ocorre fome, sede,
miséria, dor, angústia, depressão...
Nós,
cães e gatos, abandonados, descartados como objetos
não identificados, viemos a público, através
de uma página deste ilustre jornal, para informar
em segredo de injustiça que somos muitos injustiçados
quando nos colocam, para os inocentes, os perigos que representamos,
o que torna a nossa vida mais ameaçada.
Somos estereotipados
como assassinos pelas transmissões de zoonoses,
mas garantimos que os leitos hospitalares não contêm
tantos doentes por nossa culpa.
Somos expostos ao desprezo
e aos escárnios dos modernos e, às vezes,
até dos demonizados. Somos mal acolhidos, na verdade,
por uma fatia insatisfeita da população,
que nos representa enorme perigo, que faz pressão
para que os errantes, vítimas da vaidade humana,
sejam levados ao corredor da morte.
Não há o que contestar. Somos bichos, mas não
bicheiros, trapaceiros, politiqueiros, corporativos. Nascemos
pelados e ficamos peludos, desorganizados, enfim. Porém,
não assumimos tanto disparate que não perpetramos.
Não
bastasse a nossa incapacidade de tornarmos resistentes às
suas indiferenças, às suas armas químicas,
iscas envenenadas, armadilhas e carrocinhas, ainda somos
obrigados a inspirar esse ar poluído, chumbado e saciar
a sede com a água oleosa, saponificada que corre nas
guias das calçadas.
Aprendemos a colher o melhor do pior, pois, necessitamos
catar aqui, catar ali e acolá, quando não há um
infeliz por perto para delatar os humildes que nos alimentam
e nos protegem, os que nos dão carinho, alento, amor
e muita força para continuarmos na luta pela vida.
Porém,
há uma infinidade de amigos nossos nos
biotérios, que nunca viram a luz do sol, nunca pisaram
em terra firme, sob o pretexto que salvarão vidas
humanas e de outros amigos. Muitos, neste momento, estão
em locais semelhantes a um campo de concentração
nazista, esperando, passivamente, a morte chegar.
Bem que tentamos nos tornar animais de sua mais cara estimação,
mas somos diferentes. Gostaríamos de viver na mais
higiênica harmonia, mas somos animais indesejáveis;
tudo o que lhes agradam são os bichos traiçoeiros,
os bichos arteiros, o bicho-homem, pelo medo da vingança.
Mas nunca fomos trapaceiros e nem espalhamos a morte nas
moléstias, como querem, e gostam de dizer. Aliás,
preferimos essas evidências no corpo àquelas
do espírito, escondidas pelos ternos e salários
dos que se esquecem de deitar, dando ordens aos portadores
de jalecos para que nos executem.
Queremos, acima de qualquer coisa, amá-los. Mas isso
não toca os seus corações, claro. Somos
muito iguais, mas ainda somos, também, muito diferentes
e temos que trabalhar para entender o idioma de um e do outro,
sinais do corpo, desejos e necessidades.
Quem sabe um dia
seremos bonitos, esperançosamente orgulhosos, que
nos amarão tanto quanto nós lhes amamos e não
percebem. Esse é o nosso apelo, nosso respeitoso desabafo.
João
O. Salvador
Biólogo da USP (Universidade de São
Paulo) Colunista do site GREEPET, colaborador do Jornal
de Piracicaba,
Gazeta de Piracicaba e Tribuna Piracicabana
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Fonte do Artigo: www.greepet.vet.br
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