NÃO
ABANDONE ESTA CAUSA
Por João
O. Salvador
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Não
há rua, bairro, parques e praças que não
existam cães em situação aflitiva,
perambulando, tentando se adaptar ao novo estilo desconfortável
de vida.
Muitos deles, depois do abandono, adquirem um
currículo indecente, um repertório invejável
de maus-tratos físicos e psicológicos, com
a anuência requintada do sadismo humano.
Uma questão
que envolve a falta de consciência da população,
do Poder Público, e, principalmente, da irresponsabilidade
dos que adquirem um filhote para passa-tempo, ou compra-o
como brinquedo para o seu filho mimar, sem dar conta de
que um dia ele também cresce e envelhece, como ocorre
com todas as formas de vida, e traz certos transtornos.
É
inadmissível encontrar cães com sua exposição óssea,
rasgando sacos de lixo, em busca de alimento. O que fazer?
Sacrificá-los? Está mais do que comprovado
que esta tática não funciona.
Se for sacrificada
a metade de uma população de animais, a outra
metade fica com um suplemento alimentar maior e, bem alimentados,
esses animais ficam mais aptos para procriarem e ter filhotes
sadios. E, desta maneira, a população logo
dobra de novo. É o mesmo que chover no molhado. Perde-se
dinheiro à toa, ceifando-se vidas inocentes.
Fala-se muito sobre a tutela responsável para evitar
a procriação desordenada e isso não
se resolve de um dia para o outro. É preciso um planejamento
em conjunto: Poder Público, as sociedades de bem-estar
animal e os veterinários; um programa que tenha legislação,
educação, esterilização, colaboração
e a aplicação da lei.
A legislação é uma ferramenta educativa,
pois todos devem saber o que é certo e o que é errado.
O que pode e o que não pode fazer.
A esterilização mantém, no caso, a finalidade básica
de evitar o acasalamento entre os que já vivem nas ruas e amenizar o problema
da fuga de casa, principalmente dos machos que o fazem quando sentem o odor de
uma fêmea no cio. A maioria dos animais de rua – cerca de 70% - se
perde pela aventura amorosa ou por um simples passeio e, na busca incessante
pelo dono, andam dia e noite sob sol escaldante, chuva e frio, que lhes minam
a resistência, contraindo doenças e acabam morrendo às mínguas.
Um pesadelo canino.
As Câmaras Municipais, através de sua edilidade, precisam entender
que é necessário uma lei para que todo animal seja cadastrado e
receba um tipo de identidade, um registro geral do animal (RGA) para que um canil
municipal reconheça a diferença entre um animal perdido e um abandonado,
e punir o dono, se necessário.
Assim, este centro de recolhimento animal,
além de ter uma função social de combater zoonoses, poderia
anunciar, através da imprensa os animais que forem capturados, com a devida
certeza, se foram vítimas do abandono ou se eles vagueiam por se encontrarem
perdidos.
Com toda a certeza, a carrocinha não deveria existir nunca mais, porém,
como ainda existem em muitos municípios, os agentes de capturas devem
receber tratamento adequado para que essa função não sirva,
apenas, como uma prática esportiva, das laçadas irônicas,
de frieza, de insensibilidade.
Ninguém se preocupa que por trás de um animal tem uma criança
atrelada à sua meiguice, cuja afinidade lhe dá um grande aprendizado
emocional, tão necessário. Parece que matar é sempre a melhor
opção para os que trazem na bagagem genética o dom suástico
do extermínio.
As feirinhas de adoção devem ser bem organizadas por uma sociedade
protetora efetiva, ou pelos canis municipais, para que não cometam a ingenuidade,
a inocuidade de doar por doar.
Quem não tem condições econômicas
para sustentar a si próprio não vai cuidar de um animal, evidentemente,
porque é uma competição, já que ambos têm as
mesmas necessidades básicas.
Além desses animais abandonados ou perdidos, existem também os
que são mantidos em cativeiros, verdadeiros cárceres privados,
acorrentados, ao relento, sob chuva, sol abrasador, sem água e sem comida,
em pequeno espaço.
Já presenciei casos de cães mantidos
em situações de terríveis maus-tratos. Cães esquecidos,
sujos, esfomeados, deprimidos, com a perda da musculatura por falta de alimentos
e de movimentação, que levavam surras, sem forças, sem direito
a protestos.
Somente através das denúncias de vizinhos corajosos é possível
chamar a atenção ou enquadrar o malfeitor, se a lei for aplicada
com rigor. A bem da verdade, a Lei dos Crimes Ambientais só terá eficácia
quando for levada a sério.
Por isso que o caso requer muita seriedade em um programa bem elaborado, pactuado,
entre o Poder Público e as entidades protetoras, envolvendo a conscientização,
a tutela responsável, castração e punição.
Por fim, há que se construir um recanto adequado para que os cães
e gatos abandonados possam esperar pela adoção responsável.
Que este ambiente tenha boa higienização, abrigo condizente, separando
os animais doentes dos saudáveis.
Basta de sacrificar animais sadios.
Somente os laudos de um veterinário
idôneo podem comprovar a necessidade de um sacrifício, e, além
de tudo, uma instituição protetora deve ter a autonomia para acompanhar
os diagnósticos, e até mesmo escolher um veterinário de
sua confiança, se for o caso.
João
O. Salvador
Biólogo da USP (Universidade de São
Paulo) Colunista do site GREEPET, colaborador do Jornal de
Piracicaba,
Gazeta de Piracicaba e Tribuna Piracicabana
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Fonte do Artigo: www.greepet.vet.br |