O
CRIME DA PRAÇA
Afinal o que é ser gente?
Por João
O. Salvador
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| foto:
Cleusa Regina |
É de
se indignar com o que ocorreu com a dócil e indefesa
cadelinha Lillica, estuprada e morta, com requintes de
muita crueldade, por um desocupado, meliante, pernicioso
de alta periculosidade, em um banheiro público de
uma praça da cidade de Piracicaba, interior de São
Paulo. Matou-a, espancando-a contra o lavatório
até dar o seu último suspiro. Muito sangue à vista,
a cena terrível de vê-la trucidada e, o pior
de tudo, foi a posição do delegado em relação
ao caso.
Ao ser preso, o sábio e sádico infrator, em seu depoimento ao
delegado, diz se tratar de um insano. Ora, quem tem problemas mentais, não
sabem de sua enfermidade. Louco é quem rasga dinheiro e come fezes.
Mas ele sabia que com essa alegação seria inimputável
diante da lei.
Pelo boletim de ocorrência (BO), como a cadelinha não tinha dono,
não era um ser humano e, sim, um objeto, o episódio caracterizava-se,
neste caso, segundo a autoridade competente, apenas como um dano ao patrimônio
público, pela situação em que ficou o banheiro, amarrando
o fato no artigo 163 do Código Penal e liberando o assassino.
É uma pena saber que os que podem fazer a diferença, ao aprender,
entender melhor e colocar em prática os bons princípios de cidadãos,
titubeiam nesta hora. É difícil acusar, mas acho que os tempos
modernos vêm criando indivíduos frios, insensíveis, autoritários,
egoístas, que não crescem, não conhecem bem a Natureza e
seus filhos. Cultivam o lixo cultural, necrosado, achando que a leis devem basear-se
somente no que diz respeito às causas humanas. Esses são tão
velhos quanto ao Código Penal vigente. Para mim, embora leigo no assunto,
o delegado cometeu um crime de prevaricação e deveria ser punido.
Para ser um advogado conceituado e de carreira brilhante, não pode desconhecer
certas leis, ou pelo menos, que não se intrometa naquilo que desconhece,
como fez um “mestre” de direito da USP, ao concordar com a decisão
do delegado, por entender de que é preciso investigar coisas mais sérias,
como o estupro cometido contras as mulheres. O da cadelinha é insignificante
para ele.
Mas é claro que dentre os profissionais, há os que exercem dignamente
a sua função e são prudentes no cumprimento de seus deveres. Às
vezes comentem abusos, porque o erro é característico dos racionais,
da espécie humana, mas podem aproveitar dos erros para se corrigirem,
desde que não persistam na teimosia, na ignorância. Tanto é,
que outro delegado, diante da pressão pelas cartas e textos publicados
nos jornais, e-mails e discussões no Orkut, se viu obrigado a tomar
a decisão de prender o indivíduo e encaminhá-lo a um sanatório,
baseando-se em um diagnóstico médico de que possuía surtos
psicóticos. Se tudo foi forjado não se sabe, pelo menos foi retirado
de circulação.
Porém, a discussão não acabou, pois, se existe lei, não
há necessidade de esperar pelos brados populares para que ela seja aplicada.
Se a conduta por instinto é a lei do “cão” e a conduta
da razão é a do homem, o que faz, na verdade, a diferença
entre as duas classes é o bom senso, porque o resto se confunde nas
necessidades, ou sentimentos comuns: fome, sede, frio, medo, dor, depressão,
necessidade de carinho, saudade, entre outros. Mas, indistintamente, serão
transformados pelos mesmos tipos de microorganismos, segundo Lavoisier. Viram
lixos.
Vivemos em uma sociedade regida por direitos, deveres e valores morais. Este
caso, assim como tantos outros (não necessariamente relacionados aos
animais), abala o direito à vida, desestrutura valores como o respeito,
a honestidade, a bondade e a justiça.
Creio que somente os mais sensíveis e mais evoluídos espiritualmente,
conseguem entender a beleza animal. A ignorância é maior quando
o homem passa a se sentir no topo da hierarquia entre os seres vivos. É isso
que leva o homem a cometer as crueldades, ao considerar-se o dono da verdade,
da força, do poder, que os inebria tanto. Se o homem quer ser mesmo
respeitado, precisa, acima de tudo, aprender a tratar os animais com mais respeito
e dignidade. Que seja amigo, solidário e bastante responsável
pelas criaturas que participam da teia de sua existência.
João
O. Salvador
Biólogo da USP (Universidade de São
Paulo) Colunista do site GREEPET, colaborador do Jornal de
Piracicaba,
Gazeta de Piracicaba e Tribuna Piracicabana
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Fonte do Artigo: www.greepet.vet.br |