IGUALDADE
PARA OS ANIMAIS ?
por Cinara
Maria Leite Nahra
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| foto:
Mauro Kaktin |
"Talvez
chegue o dia em que o restante da criação
animal venha a adquirir os direitos dos quais jamais poderiam
ter sido privados, a não ser pela mão da
tirania.Os franceses já descobriram que o escuro
da pele não é motivo para que um ser humano
seja abandonado, irreparavelmente, aos caprichos de um
torturador.É possível que algum dia se reconheça
que o número de pernas, a vilosidade da pele ou
a terminação dos sacrum são motivos
igualmente insuficientes para se abandonar um ser sensível
ao mesmo destino. O que mais deveria determinar a linha
insuperável? A faculdade da razão, ou, talvez,
a capacidade de falar? Mas para lá de toda comparação
possível, um cavalo ou um cão adultos são
muito mais racionais, além de bem mais sociáveis,
do que um bebê de um dia, uma semana, ou até mesmo
de um mês. Imaginemos, porém, que as coisas
não fossem assim; que importância teria tal
fato? A questão não é saber se são
capazes de raciocinar, ou se conseguem falar, mas, sim,
se são passíveis de sofrimento". (Jeremy
Bentham)
Peter Singer, autor de livros como Practical Ethics (Ética
Prática em tradução brasileira da Martins
Fontes) e Animal Liberation*, é um dos maiores filósofos-eticistas
da atualidade - e também um dos mais polêmicos.
Filiado à tradição utilitarista, que
tem entre seus maiores expoentes J.Bentham e J.S.Mill, Singer
avança em relação a estes e postula
como princípio ético básico o Princípio
da Igual Consideração de Interesses, que ele
considera como sendo um princípio básico de
igualdade.
A
essência do Princípio da Igual Consideração
de Interesses é a de que em nossas deliberações
morais devemos atribuir o mesmo peso aos interesses semelhantes
de todos que são atingidos por nossos atos.
Por esse
princípio, um interesse é um interesse, seja
lá que quem for. O princípio, então,
atuaria como uma balança, pesando imparcialmente os
interesses de cada um. Uma correta aplicação
do Princípio da Igual Consideração de
Interesses nos leva a uma condenação radical
do racismo, do sexismo, e também (e é isso
que nos interessa mais diretamente aqui) do especismo.
Mas
o que é o especismo? O especismo pode ser entendido
em analogia com o racismo. O racista é aquele que
supõe que os membros de sua raça tem mais valor
que os membros de outras raças. O racista, pois, considera
que os fatores físico/biológicos que determinam
que um indivíduo pertença a uma determinada
raça têm um valor moral.
O especista é uma
espécie de "racista ampliado", ou seja,
ele acredita que os fatores biológicos que determinam
a linha divisória de nossa espécie têm
um valor moral, ou seja, a vida de um membro da espécie
humana, pelo simples fato do indivíduo pertencer à espécie
humana, tem mais valor do que a vida de qualquer outro ser.
A
conseqüencia mais nefasta do especismo seria a de
considerar que é moralmente admissível infligir
sofrimento a seres que não pertencem à espécie
humana.
O
que Singer faz, entre outras coisas, é uma crítica
ao especismo a partir da defesa do seu Princípio da
Igual Consideração de Interesses.
Para ele,
ao mesmo tempo que esse princípio proporciona uma
base adequada para a igualdade humana, esta base não
pode ficar restrita aos seres humanos.
Ele supõe que
uma vez que tenhamos aceitado o princípio como uma
sólida base moral para as relações com
seres de nossa própria espécie, também
somos obrigados a aceitá-lo como uma sólida
base moral para as relações com aqueles que
não pertencem a nossa espécie: os animais não
humanos.
Mas,
pergunta-se ironicamente o próprio Peter Singer,
como é possível que alguém perca seu
tempo tratando de igualdade dos animais quando a verdadeira
igualdade é negada a tantos seres humanos?
Sua resposta é a
de que essa atitude (negar importância à discussão
sobre direitos dos animais) reflete um preconceito que é tão
infundado quanto aquele que um dia levou os brancos proprietários
de escravos a não considerar com a devida seriedade
os interesses de seus escravos africanos.
Para nós,
diz Singer, é fácil criticar os preconceitos
dos nossos avós, dos quais nossos pais se libertaram,
mas é muito mais difícil nos distanciarmos
de nossos próprios pontos de vista, de tal modo que
possamos, imparcialmente, procurar preconceitos entre as
crenças e os valores que defendemos.
É nessa linha que Singer escreve algumas das mais
belas páginas já escritas em favor do respeito
e da consideração aos animais.
Na linha já esboçada
por Bentham, ele vai dizer que se um ser sofre não
pode haver nenhuma justificativa de ordem moral para que
nos recusemos a levar esse sofrimento em consideração.
Seja qual for a natureza do ser, o Princípio da Igual
Consideração de Interesses exige que o sofrimento
seja levado em conta em termos de igualdade com o sofrimento
semelhante de qualquer outro ser. E é precisamente
isto que os especistas não admitem, ou seja, que a
dor é tão má quando sentida por porcos,
ratos, ou por seres humanos.
Se achamos errado infligir dor
a um bebê sem nenhum motivo, então, a menos
que sejamos especistas, devemos achar igualmente errado infligir,
sem motivo algum, a mesma quantidade de dor a um cavalo.
A
dor e o sofrimento são coisas más e, independente
da raça, do sexo ou da espécie de quem as sofre,
devem ser evitadas ou mitigadas.
Após
estas postulações Singer nos convida
a refletir, apresentando uma série de crueldades que
são cometidas pelos humanos contra os animais.
Nesta
lista de horrores estão a castração,
a separação de mães e filhotes, a separação
de rebanhos, as marcas com ferro em brasa. Isto sem falar
na exposição de animais à atos de crueldade
extremos sob a desculpa de que estão sendo realizadas
experiências que seriam úteis para os humanos.
Ele
cita experiências que foram realizadas em décadas
passadas no Instituto de Radiobiologia da Forças Armadas
dos EUA, em que macacos do gênero Rhesus eram forçados
a correr dentro de uma grande roda.
Quando eles reduziam
a velocidade a roda fazia o mesmo e os macacos levavam choques
elétricos. Quando os macacos estavam já treinados
para correr por longos períodos, recebiam doses letais
de radiação, e então, sentindo-se mal
e vomitando, eram obrigados continuar correndo até cair.
A
suposta finalidade desta "experiência" era
obter informações sobre a capacidade dos soldados
de continuar lutando depois de um ataque nuclear.
A conclusão
de Singer é a de que nestes e em muitos outros casos
os benefícios para os seres humanos são inexistentes
ou incertos, ao passo que as perdas para os membros de outras
espécies são concretas e inequívocas.
Uma correta aplicação do Princípio da
Igual Consideração de Interesses condenaria
estas experiências do ponto de vista ético.
O
que o filósofo Peter Singer faz quando discute
as questões éticas relativa aos animais é,
antes de tudo, um chamamento dos humanos para a reflexão. É fora
de dúvida que o que diferencia os humanos do resto
da criação animal é justamente a faculdade
da razão.
Mas o que estamos fazendo com nossa Razão?
Se a utilização da Razão leva a atos
de extrema crueldade para com aqueles que estão indefesos
diante de nós, não seria a hora de usarmos
o nosso raciocínio para rever nosso papel neste belo
planeta azul?
A Razão humana pode ser libertadora,
mas pode ser, também, sádica e cruel. É chegado
o tempo dos homens analisarem cuidadosamente o significado
disto.
Para que as outras espécies não sofram
as conseqüencias de erros que são de inteira
responsabilidade nossa. De nós, os humanos...
Cinara
Maria Leite Nahra
Professora do Departamento de Filosofia da Universidade Federal
do Rio Grande do Norte.
Mestre na área de Filosofia Moral e Política
pela UFRGS.
Autora de Malditas Defesas Morais (Cooperativa Cultural/RN).
Co-autora de Através da Lógica (Vozes).
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Fonte do Artigo: www.greepet.vet.br |