Ao
meu particular amigo
Por João
O. Salvador
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| foto:
Ellen Weckerlin |
“Mais
vale um cachorro amigo do que um amigo cachorro” é um
ditado popular, porém o cão só será “indigno,
canalha e cafajeste”, com define o Aurélio,
para o segundo caso, com a anuência do seu dono,
representando, justamente, os adjetivos ou o caráter
daquele que o conduz, muitas vezes contra a sua própria
vontade.
O Kito era um dos cachorros que representavam os melhores
adjetivos das pessoas de amor, de paz, de sensibilidade e
de harmonia.
Enfrentamos juntos caminhos pedregosos, por
mais de dez anos dentro de uma instituição
científica, na tentativa de mantê-lo onde mais
gostava, após ter sido abandonado, ainda “criança”.
Apesar dos desafetos, tinha uma legião de adeptos
(docentes, alunos e funcionários), pela sua docilidade,
companheirismo e fidelidade a todos.
Para os defensores de
sua permanência, seus fiéis adeptos, sua presença
era importante, pois, representava o bem-estar de muitos
e, ainda, colaborava com os vigias nas rondas noturnas em
defesa do patrimônio, sem receber adicional noturno,
apenas em troca da atenção e carinho. Protegia
seu território com unhas e dentes, expulsando até mesmo
os mais ferozes e intrusos dos cães.
Para os opositores,
todavia, sua presença, principalmente, em locais de
maior acesso, justamente um centro de excelência, depreciava
o ambiente, denegria a imagem da instituição
e representava perigo.
Porém teve muita sorte ao encontrar
um grupo forte de apoio e permaneceu. Tive, sim, juntamente
com um dos mais nobres cientistas da instituição,
meu particular amigo, a total responsabilidade por ele. Mas
senti seu próprio dono. Dava-lhe banho, vacinas, vermífugos
e alimentava-o todos os dias. Levava-o passear juntamente
com a Nina (hoje muito tristonha), na hora do almoço.
Ia à frente latindo e pulando, como se a minha presença
movimentasse seus sentidos.
Ao acariciá-lo, minhas
mãos pareciam-lhe a leveza da paz. Percebia, claramente,
que ele sentia um vazio enorme quando eu deixava a instituição.
Acompanhava-me sempre com seu característico e meigo
olhar. Mesmo no meu estado inconstante de humor, sempre me
compreendia e sei que ele conseguia ser feliz até mesmo
neste momento.
Assim foram todos os santos dias. Sua refeição
quentinha era preparada todos dias, recheada daquilo que
mais gostava. Comilão como era, quantas vezes lhe
dei da minha própria comida ou comprava marmitex para
satisfazer seu apetite voraz.
Quantas vezes renunciei-me
em viajar nas minhas férias. Dava-lhe constante atenção
sem interferir nos meus deveres profissionais. Dia e noite
se fosse preciso, principalmente quando ficava doente ou
quando era atingido pelos dardos certeiros de ouriços,
que lhe infestavam a boca.
Disciplinei-o a não permanecer
em locais não permitidos e como aprendeu rápido!
Meu carro, então, tinha um som especial, reconhecia-o
entre mil. Sentia nos meus passos um timbre de magia, como
uma música suave. Gostava de algumas presenças
e era totalmente indiferente a outras. Mais disciplinado
do que muitos aguardava sempre sentadinho, esperando os guardas
saírem dos prédios durante as rondas noturnas.
Enfim, meu querido Kito morreu sabendo que foi muito amado
e serenamente fechou seus olhinhos, resignadamente, nos braços
de quem nunca lhe abandonou um instante sequer. Vencemos
todas as barreiras, menos seu problema renal.
Mas
valeu a pena ter convivido com você, rapazinho. Descanse em
paz, meu amigo, porque amigo é coisa para se guardar
do lado esquerdo do meu peito, debaixo de sete chaves, onde
você repousa neste momento, em seu jazigo florido,
ao lado de minha sala.
João
O. Salvador
Biólogo da USP (Universidade de São
Paulo) Colunista do site GREEPET, colaborador do Jornal de
Piracicaba,
Gazeta de Piracicaba e Tribuna Piracicabana
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