QUANDO
É QUE UM CÃO, NÃO É MAIS UM CÃO?
por Dennis
Martin

foto: Djalma Filho |
O
cão deixa de exercer a sua verdadeira função
quando buscam nele a semelhança ao homem.
No dia-a-dia encontro este ser (cão) com freqüência.
Ele vem em várias formas e tamanhos. Interessante
notar que, nem o tamanho, nem a forma afetam a habilidade
de exercer as suas funções.
O cão tem plenos poderes pois foi eleito por unanimidade
para permanecer na posição que ocupa. Seria
natural imaginar, que tendo este voto de confiança
tão arrasador, ele poderia logo tornar a convivência
difícil, mas não é o caso pois, seus
seguidores são muito pacientes, e sempre justificam
quaisquer atitudes adversas da parte dele com facilidade:
pode ser o calor, o momento, etc.
Ele é um ser com muitas responsabilidades, tem muitos
problemas para resolver diariamente. Mas ele é incansável.
Dia após dia, ele mostra para seus seguidores como
devem ser, quando devem fazer e quando não devem fazer
coisas.
Este ser na realidade aceitou a posição que
ocupa porque não houve outro dentre seus seguidores
que demonstrou habilidade para ocupar a posição,
e ele ciente de que sem líder qualquer comunidade
está destinada à ruína, tomou a dianteira
pelo bem de todos.
A verdade é que apesar de aparentar ser feliz, ele
não é. Esta tarefa que lhe foi incumbida, de
liderar, e de resolver todas as situações dos
seus seguidores lhe estressa bastante, e ao se deitar para
descansar no final do dia, seu trabalho não terminou,
ele tem tarefas noturnas também, precisa ficar atento
para, se necessário, entrar em ação
imediatamente.
O alto “status” dele lhe confere várias
regalias durante o exercício das suas tarefas diárias.
Ele pede e ganha, ele pega e ninguém contesta, ele
fala e todos prestam atenção, ele manda e todos
obedecem. Mesmo assim ele não é feliz.
Este ser cada vez mais se assemelha com seus seguidores,
ele veste roupa, sapato, toma banho e penteia os pêlos,
entre outros.
As más línguas dizem que os culpados desta
situação são os seguidores, que vêem
neste líder a reflexão deles mesmos. Daí é que
tratam este ser sofredor de forma tão diferente, na
noção de que estão propiciando uma qualidade
de vida muito boa a ele.
Os seguidores vão lhe contar que amam seus líderes,
e disto ninguém dúvida, mas este amor poderá fazer
com que o ser, que até antes de ser eleito era manso
e muito afável, torne-se agressivo e dominante.
Este amor poderá fazer com que um ser de bom peso
e saudável torne-se obeso, com risco de doenças
cardíacas, por exemplo. Este amor que confunde pode
trazer mudanças drásticas no comportamento
do cão.
Quando então, o comportamento do ser começa
a incomodar os seguidores, vão com ele ao médico
veterinário, ou melhor ainda a um comportamentalista
para cães (psicólogo de cães). Somente
neste momento, é que percebem que apesar de estarem
diante de um “psicólogo canino”, quem
está sendo analisado são eles.
O líder é observado sim, mas ninguém
dirige a palavra a ele.
As perguntas e os comentários
do “psicólogo” são todas dirigidas
ao comportamento dos seguidores. Descobrem então,
que estão humanizando o cão. E ainda que, o
problema que apresentaram ao psicólogo nasceu e é sustentado
pelo comportamento deles em relação ao cão.
Percebem
que o amor que tanto dão ao seu líder
amado, é na realidade um desamor. Que a liberdade
que deram ao líder desequilibrou o relacionamento
entre eles. Que este ser não quer ser líder.
Este ser quer estabilidade, coerência de atitude, e
claras diretrizes para seguir.
Este ser prefere mil vezes fazer o papel que nunca chegou
a exercer junto aos seguidores, ou seja ser um cão,
com um líder mais capaz de lidar com a vida.
Então os seguidores acabam percebendo que para corrigir
a situação, primeiro é necessário
que eles mudem o seu comportamento. Nesse momento, será necessária
muita dedicação, força de vontade e
amor, oferecido de forma diferente, uma forma muito mais
compreensível para o antigo líder. Enfim, vai
poder ser aquilo que nasceu, afinal, quando é que
um cão não é mais um cão... Quem
sabe, seja quando ele é visto com os olhos que buscam
nele o impossível, a semelhança ao homem.
 |
Dennis
Martin - AMBIPDT |
Colunista
do site GREEPET.
Royal Pet Mania - Escola de Adestramento.
Analista Comportamental de Cães, com formação
em Educação Canina na Inglaterra.
Membro do British Institute of Professional Dog Trainers da Inglaterra. www.dennismartin.com.br |
*
este artigo pode ser publicado livremente em Revistas, Jornais, Newsletters e outros meios de comunicação, desde que a biografia do autor permaneça intacta e a fonte do artigo seja citada.
Fonte do Artigo: www.greepet.vet.br
|