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Pós-operatório
de Coluna Vertebral (Hemilaminectomia)
por Dr. Max N. Freire
“Honey”,
canino fêmea, dachshund, 3 anos de idade.
Trata-se de um animal jovem, muito ativo, que fazia passeios apenas com a proprietária,
duas vezes ao dia. A alimentação era baseada em ração
de qualidade e eventualmente alguns petiscos. Costumava correr muito pela casa,
principalmente quando tocava a campainha da porta, momento este que o animal
se deslocava até ela e ficava pulando em frente a mesma latindo. O piso
do apartamento era extremamente liso, predominando pedras de mármore e
tabuão.
A proprietária relatava que Honey estava muito bem até um dia que
ao descer da cama, deu um “grito” demonstrando sinal de dor, ficou
alguns minutos deitada no local, mas logo levantou-se andando com uma certa dificuldade.
No dia seguinte a proprietária levou o animal ao atendimento veterinário
em uma clínica próxima de sua residência. A veterinária
responsável na clínica após efetuar a consulta encaminhou
o paciente a uma clínica de um veterinário especialista em neurologia.
Honey chegou a esta clínica especializada apresentando quadro agudo de
paraparesia e hiperestesia dorsal em região tóraco lombar. O exame
neurológico revelou lesão medular toraco-lombar grau II. Conforme
o diagnóstico foi prescrito pelo clínico carproflan 25 mg SID,
dipirona 220 mg TID e restrição de movimento em caixa de transporte
por 21 dias. Após esse período o animal teve recuperação
completa e recebeu alta.
No entanto Honey apresentou recidiva do quadro, desta vez com compressão
tóraco-lombar grau V. Com isso o clínico retornou com o mesmo tratamento
anterior por 7 dias. Sem qualquer modificação do quadro foi solicitada
uma mielografia. Esta confirmou a compressão extra dural em topografia
de T13-L1 ventral e levemente lateralizada a direita. Dois dias após o
exame foi feita uma hemilaminectomia direita em T13-L1 para retirada do material
de disco extruso no canal medular. Com isso, na fase pós-operatória,
foram utilizados carproflan e tramadol por 4 dias na clínica e mais 3
dias em casa. Após esse período foi encaminhada para iniciar a
fisioterapia.
O animal chegou para a primeira avaliação fisioterápica
ainda com os pontos da cirurgia conforme aparece na Figura 14, arrastando os
posteriores, já com formações de úlceras de pressão.
Ao exame físico específico apresentou os reflexos de dor profunda
e retirada de pata debilitados, porém presentes. A proprietária
ainda relatava que o animal estava apresentando um quadro de incontinência
urinária e fecal. Diante do quadro do paciente foram estabelecidos os
seguintes objetivos de tratamento.
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“Honey” durante
a segunda sessão de fisioterapia recebendo
eletroestimulação por tensacupuntura
ainda com os pontos da cirurgia (Vetphysical – 2005).
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| foto:
Dr. Max N. Freire |
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- Objetivos a curto prazo: animal conseguir manter-se em
estação, redução do quadro álgico
e recuperação das funções normais
de micção e defecação. Para
isso foi utilizada a técnicas fisioterápica
de tensacupuntura para redução do quadro álgico
(BORGES, 2004 e FREIRE, 2005), e para as demais funções
estímulos proprioceptivos com escovação
do membro posterior e coluna (FREIRE, 2005).
- Objetivos a médio prazo: levantar-se sem ajuda
e conseguir deslocar-se sozinha mesmo que com dificuldade.
Para a obtenção de tais resultados, foi indicada
a utilização de exercícios terapêuticos
com a finalidade de melhorar, restaurar ou aumentar a função
física normal (AMARAL 2006 e FREIRE, 2005). Além
disto foi dada continuidade das técnicas anteriores
evitando o aparecimento de recidivas de dor e conseqüentemente
formação de um quadro de espasmo muscular
desencadeado pelo ciclo de “dor-espasmo-dor” (FREIRE,
2005 e PIESCO 2005).
- Objetivos a longo prazo: retorno da capacidade de locomoção
o mais próximo possível do normal. Para tal
fim a utilização indicada eram de diversas
técnicas, principalmente baseadas em cinesioterapia.
A utilização dos exercícios terapêuticos
nesse momento já tinha indicação em
caráter mais acentuado, além do incremento
com a utilização de estímulos proprioceptivos
voltados ao equilíbrio (FREIRE, 2005).
O tratamento utilizado está descrito de forma mais
detalhada na Figura 15, a seguir.
| Tratamento
inicial: (08/08/2005) Tensacupuntura com agulha (5Hz,
200?s 12 minutos) – Pólo
positivo entre os processos espinhosos de T6 e T7, pólo
negativo entre os processos espinhosos de L6 e L7. Escovação
dos membros posteriores, com escova de cerda macia, no
sentido disto-proximal (6 séries de 10, medial
e lateral). Escovação da coluna, com escova
de cerda macia no sentido crânio-caudal (6 séries
de 8). Foi indicado ao proprietário repetir as
escovações duas vezes ao dia. |
| Sessão
2 Data: 15/08/2005
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Tratamento: Tensacupuntura com agulha (5Hz, 200?s 12 minutos) – Pólo positivo entre os processos
espinhosos de T6 e T7, pólo negativo entre os
processos espinhosos de L6 e L7. |
| Evolução: Paciente continuava
se arrastando com os posteriores. Ao teste de reflexo
de dor profunda e retirada de pata, Honey apresentava
uma resposta mais satisfatória. Foi solicitado à proprietária
continuar escovação. |
| Sessão
3 Data: 22/08/2005
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Tratamento: Tensacupuntura com agulha (5Hz, 200?s 12 minutos) – Pólo positivo entre os processos
espinhosos de T6 e T7, pólo negativo entre os
processos espinhosos de L6 e L7. |
| Evolução: Animal apresentava-se
extremamente ativo, mas ainda arrastando os posteriores.
Quando era levantada pela proprietária mantinha-se
em estação sozinha, no entanto sem andar.
Indicado continuar escovação. |
| Sessão
4 Data: 29/08/2005
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Tratamento: Tensacupuntura com agulha (5Hz, 200?s 12 minutos) – Pólo positivo entre os processos
espinhosos de T6 e T7, pólo negativo entre os
processos espinhosos de L6 e L7. Estação
em ângulo de 45o, com membros anteriores sobre
um suporte durante 10 minutos. |
| Evolução: Animal encontrava-se
andando sozinha, no entanto com pouco equilíbrio.
Levantava e deitava sem auxílio. Indicado continuar
escovação e fazer o exercício de
estação em ângulo duas vezes ao dia
por 10 minutos. |
| Sessão
5 Data: 05/09/2005
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Tratamento:
Tensacupuntura com agulha (5Hz, 200?s 12 minutos) – Pólo positivo entre os processos
espinhosos de T6 e T7, pólo negativo entre os
processos espinhosos de L6 e L7. Dança durante
3 minutos sobre piso anti-derrapante. |
| Evolução: Paciente estava
caminhando bem, equilibrando-se melhor, mas ainda apresentava
certo grau de ataxia. Proprietária relatava que
Honey estava muito bem, além de bastante agitada,
correndo pela casa, eventualmente escorregava e caía.
Foi indicado encerrar exercícios anteriores e
iniciar com a dança (duas séries de 3 minutos,
duas vezes ao dia). |
| Sessão
6 Data: 12/09/2005
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Tratamento: Tensacupuntura com agulha (5Hz, 200?s 12 minutos) – Pólo positivo entre os processos
espinhosos de T6 e T7, pólo negativo entre os
processos espinhosos de L6 e L7. Tábua proprioceptiva
durante 5 minutos com desequilíbrio lateral e
por 5 minutos com desequilíbrio crânio-caudal. |
| Evolução: Paciente continuava
melhorando do quadro de ataxia. Quando estava em estação
mantinha-se bem equilibrada. Corria muito pela casa,
mas caindo menos. Indicado uso da tábua proprioceptiva
durante 5 minutos com desequilíbrio lateral e
por 5 minutos com desequilíbrio crânio-caudal,
duas vezes ao dia. |
| Sessão
7 Data: 19/09/2005
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Tratamento: Tensacupuntura com agulha (5Hz, 200?s 12 minutos) – Pólo positivo entre os processos
espinhosos de T6 e T7, pólo negativo entre os
processos espinhosos de L6 e L7. Tábua proprioceptiva
durante 5 minutos com desequilíbrio lateral e
por 5 minutos com desequilíbrio crânio-caudal. |
| Evolução: Honey apresentava-se
andando praticamente normal, subindo e descendo da cama
da proprietária sozinha. Foi prevista alta para
a sessão seguinte, além de ter sido indicado
continuar com a tábua proprioceptiva e retomar
passeios na rua com coleira do tipo peitoral e sem esforço
excessivo. |
| Sessão
8 Data: 26/09/2007
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Tratamento: Tensacupuntura com agulha (5Hz, 200?s 12 minutos) – Pólo positivo entre os processos
espinhosos de T6 e T7, pólo negativo entre os
processos espinhosos de L6 e L7. |
| Evolução: Paciente estava
andando muito bem. Indicado término do tratamento,
mas foi indicado continuar evitando esforço excessivo. |
| Figura
15. Evolução
fisioterápica da paciente “Honey”. |
A paciente teve uma excelente evolução, com apenas uma sessão
semanal durante um período de aproximadamente um mês e meio, aliado
aos exercícios recomendados para serem efetuados pela proprietária
diariamente, Honey voltou praticamente a sua condição normal
anterior ao processo patológico.
É importante salientar que o tratamento também se baseou numa boa
formação de uma nova memória proprioceptiva para a paciente,
sendo esta memória de extrema importância no intuito de prevenir
recidivas ou a formação de uma memória sensorial patológica,
que poderia vir a trazer distúrbios posturais e comportamentais posteriores
(LEHMKUHL et al., 1997).
As metas foram atingidas satisfatoriamente e em tempo previsto, demonstrando
que a utilização da fisioterapia pós-operatória é de
grande valia para a aceleração do processo de recuperação
e conseqüentemente qualificando o resultado do procedimento cirúrgico
(FREIRE, 2005). A Figura 16 mostra “Honey” fazendo exercício
de propriocepção sobre a prancha durante a sétima sessão.
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“Honey” realizando
exercícios proprioceptivos sobre a prancha
(Vetphysical – 2005).
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| foto: Dr. Max N. Freire |
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Distúrbios discais são muito freqüentes na situação
em que se deu o caso clínico de Honey. É muito comum que ocorram
na região entre T12 e L2 e entre as raças em que seu aparecimento é mais
freqüente estão os dachshunds, basset hounds, cocker spaniels,
beagles, poodles, entre outras (SHEALY et al., 2004).
Doença do disco intervertebral é a causa mais
comum de paresia e paralisia em cães. Hansen classificou
em hérnias de disco do tipo I e II, também
denominadas de extrusão e protrusão respectivamente
(MATERA e PEDRO, 2006).
Segundo estes autores, acrescidos de Shealy et al (2004),
ambas as hérnias causam injúria primária
da medula espinhal, geralmente associada a sinais clínicos
neurológicos. Normalmente os sinais aparecem de forma
gradual, mas dependem da quantidade de material discal envolvido
e o tamanho da compressão. Apenas cerca de 10% dos
cães afetados não apresentam sinais neurológicos.
Os mesmos autores afirmam que dentre os sinais clínicos
e sintomas que podem ser observados estão a relutância
em correr, pular, subir escadas, cifose, dor à palpação,
déficit nos reflexos proprioceptivos, alterações
na função da bexiga, etc. Cães que
apresentam lesões do disco intervertebral podem apresentar
disfunção medular, variando desde uma leve
ataxia até uma completa paralisia.
Ainda, segundo estes autores, o diagnóstico é
baseado nos sinais clínicos e exame neurológico,
porém tem sua confirmação através
do exame radiográfico simples e contrastado, análise
do líquido cerebroespinhal, tomografia computadorizada
ou eletromiografia.
As opções de tratamento consistem nos métodos
conservativos, técnica cirúrgica e a fisioterapia,
sento que a eleição pela melhor técnica
depende da severidade dos sinais e sintomas. A indicação
cirúrgica se deve a um grau elevado de déficit
neurológico e progressivo, na presença de
dor constante e no insucesso do tratamento conservador (MATERA
e PEDRO, 2006; SHEALY et al., 2004). Freire (2005) relata
que a indicação cirúrgica também
se deve a fase em que a patologia se encontra, sendo que
nos casos crônicos normalmente se observam excelentes
resultados com a fisioterapia, no entanto muitos casos agudos
são mais indicativos de procedimento cirúrgico.
A reabilitação para casos de lesão
na coluna vertebral se baseia nos seguintes métodos:
- Orientação dos proprietários quanto
a prognóstico, a importância do repouso a necessidade
de sua cooperação durante o tratamento.
- O TENS é indicado para promover uma boa analgesia.
- A utilização do laser também tem
grande valia, devido às suas propriedades analgésicas
e antinflamatórias, e no caso de pós-cirúrgicos
também auxiliam no processo de cicatrização.
- A cinesioterapia com suas diferentes técnicas com
os objetivos de restaurar e manter a normalidade do equilíbrio,
coordenação, força, mobilidade.
- A hidroterapia também é uma importante ferramenta
na reabilitação de pacientes com esse tipo
de lesão, visto que ela possibilita um melhor conforto
e menos problemas causados pelo impacto e pela gravidade,
além de suas outras propriedades já relatadas
anteriormente.
Segundo Freire (2005) é extremamente contra-indicado
a utilização de carrinhos de rodas para facilitar
a locomoção do animal, pois em muitos casos
os pacientes tendem a acomodarem-se com a situação,
o que acaba tornando mais lento o processo de recuperação,
ou até mesmo impedindo que este ocorra. A função
proprioceptiva conferida pelos tipos de carrinhos que permitem
o contato com o solo é suprida de forma muito mais
eficaz por outros tipos de técnicas como a escovação,
mobilização, estação induzida
e até mesmo a eletroestimulação.
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Dr. Max N. Freire |
CRMV-RJ
5883
Colunista do site GREEPET.
Diretor Vet Physical
Prof. Fisioterapia e Acupuntura Veterinária Universidade
Estácio de Sá
Prof.Fisioterapia Veterinária Vet Physical e
Instituto Bioethicus
Prof. Acupuntura do Instituto Brasileiro de Medicina
Tradicional Chinesa
Pós Graduado em Acupuntura (Academia Brasileira
de Ciências Orientais)
Graduando em Fisioterapia (UNESA) |
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intacta e a fonte do artigo seja citada.
Fonte do Artigo: www.greepet.vet.br
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